Manhã clara no Jardim das Amoreiras. Da mesa da esplanada do quiosque, é fácil imaginá-los ali sentados a conversar ou a descer a rua abraçados, vindos da casa que tinham ao virar da esquina, no Alto de São Francisco.
Maria Helena Vieira da Silva e Arpad Szenes pareciam quase sempre um casal de namorados, mesmo quando ele estava no Rio de Janeiro e ela num navio a caminho de Dacar, mesmo quando ela passava temporadas em Lisboa a aborrecer-se com conversas de sala depois do jantar, e ele em Paris, entre amigos e telas na casa do Boulevard Saint-Jacques e no atelier da Avenida Denfert-Rochereau.
Ler parte das dezenas de cartas que escreveram um ao outro durante os 55 anos em que viveram juntos é entrar na sua intimidade, perceber de que se ocupavam quando não estavam a pintar, o que os preocupava quando se separavam.
"Hoje, ao olhar as tuas fotografias, gostei tanto de me lembrar de nós no ateliê a cozinhar. Eu abraçava-te apaixonadamente e a fotografia ficou com o sabor da mousse de chocolate. Adorava ver-te mesmo de longe", escreve-lhe Arpad em Março de 1947, num período em que Vieira regressa a Paris e o pintor húngaro fica no Rio de Janeiro, transformando o ateliê que partilhavam em Santa Tereza, bairro boémio de casario português e muitos artistas, na sua "gruta tropical".
"As cartas entre a Vieira e o Arpad quase não falam de pintura. O que ali vemos é a vida a acontecer".
Pelo nosso laço, meu amor, da fibra do amor das grandes almas, dos grandes artistas, dos grandes amantes. Amo-te. Amo-te desde o primeiro instante. E para sempre.

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