Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer!
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.
Têm dolência de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder…
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer!
Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz!
Amo-te tanto! E nunca te beijei...
E nesse beijo, amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!
Sou das ciências, meu amor, e conto. Conto as coisas que fiz e, sobretudo, as que ainda não fiz. Melhor: contabilizo. Sento-me, no quarto quase escuro, entre papéis no chão e roupa por e para lavar, e vou fazendo riscos que são a nossa vida. Entre números e tempos, escrevinho as músicas e os poemas que nos quero, sonho os nossos livros, vejo os nossos pequenos e sinto o teu cheiro. Tanta insatisfação, amor! Tanto mais querer, para nós... Há tnato que temos ainda de fazer...
Sinto-te tanta falta, Maria!...

Eu não sou das Ciências e não conto. Penso, imagino e sonho. Sonho e crio. Crio menos do que desejava, mas sonho. Nada exijo. Nada listo. Apenas espero que o sonho nasça e que perante mim se crie, essa imagem que dança no meu pensamento. Vejo-a nos corredores de tua casa, nos jardins da Gulbenkian ou na Place d'Étoile. Sonho-nos, hoje, em Berlim, sem querer riscar, mas anotar para esquecer, para voltar, voltar e sonhar sempre com aquela imagem dançante.
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