"The great moments of your life won't necessarily be the things you do. They'll also be the things that happen to you. Now, I'm not saying you can't take action to affect the outcome of your life. You have to take action. And you will! But never forget, that on any day, you could step out the front door, and your whole life could change forever. You see, the Universe has a plan kids; and that plan is always in motion. A butterfly flaps its wings, and it starts to rain. It's a scary thought, but it's also kind of wonderful. All these little parts of the machine constantly working... Making sure that you end up exactly where you're supposed to be.. exactly when you're supposed to be there. The right place. At the right time."
Muitas vezes, amor, penso o que teria sido de nós se não tivéssemos sido. Se não estivesse no Porto. Se não te escrevesse. Se não tivesse vindo. Se não tivesses respondido. Se não tivesses aparecido. Se não tivesses voltado.
Sempre te amei, Maria. Amava-te já desde antes de nós. Amava-te enquanto ideia, imagem, reflexo, miragem. Queria-te e desejava-te. Quase te sentia o cheiro, juro. Amei-te enquanto amiga, mulher, esposa, amante e namorada. Amei-te dia e noite, sob o sol do Verão e a chuva do Inverno. As minhas noites eram tuas, e os dias também. Tudo. A casa era tua, mas não moravas lá. A almofada era tua, mas não era naquela que adormecias nem na minha que acordavas. Em momento algum eu te não tive em mim. Em toda a minha vida. Nasceste em mim comigo, meu amor.
E vim, do mundo até ti, também por entre vinhas sobredos vales socalcos searas serras atalhos veredas lezírias e praias claras. Também aqui, como se fosse em Califórnia 21, meu amor, eu te esperava todos os dias. E aconteceu também tu me esperares. Um dia, tu de laço no cabelo, eu de sobretudo abraçado ao peito. Trazias o livro que na altura lias, se bem me lembro, e eu levava o meu. Ali, mesmo ali ao pé do mar, foi onde nos beijámos pela primeira vez. Naquele jardim, junto àquele riacho que agora mais claro vemos, cresceram as nossas flores, uma por uma, com tempo, como quem tem a paciência de esperar que a vida aconteça por saber de antemão o que a vida lhe espera. Não de concreto, claro, mas de completo. Uma por uma, dizia-te, medraram as nossas flores. Dos bolbos sairam caules, e dos caules folhas, e, bem na ponta, as mais maravilhosas flores. E dentro das flores, cresceram as pétalas, e os estames, e destes o nosso próprio pólen se desprendeu, e dessas flores outras nasceram, e cresceram, e, juntas, fizeram o jardim que somos. A cada instante, bebendo a água e a natureza da terra que os nossos pés nús haviam já pisado, dessas outras novas flores, outras mais belas ainda brotaram. E árvores também, com troncos grossos e fortes como Zeus, e de onde se esboçaram frutos doces como Hera.
E dessas flores todas fizeram-se cidades e pessoas, e imagens, e sons. Movimento. Do nosso chão nasceu a vida que vejo. Olho para a minha esquerda, e vejo-nos correndo por entre as estátuas do Louvre, esquivando visitantes e guardas. Mais ao fundo, vejo também o Ben Webster adormecendo os nossos petizes. Virando-me para a direita, sinto o cheiro de caminhadas em Villa Borguese, comentando a pérola do brinco de uma rapariga, e sorrindo sobre tolices de Shakespeare. Se me voltar para trás, meu amor, tenho-nos partilhando o Metropolis, entre mantas, e com os pés apoiados numa pilha de poemas celtas sobre o amor entremeados com Rulfo e Cristina Campo. Mesmo por diante de mim, e até onde a minha vista alcança, é-me fácil distinguir todas e cada uma das flores: os lírios, balançando ao vento como as notas de música, as tulipas, coloridas como as palavras, as flores de laranjeira, como os nossos lençóis, os narcisos, belos como os nossos pequenos, as magnólias e as orquídeas, puras e simples como os nossos dias, as gerberas, divertidas como o Une femme est une femme, e as flores de cerejeira, imaculadas como o porto Kyoto onde tantas vezes nos abrigaremos.
E mais, amor, muito mais. Mais existe, e mais temos. Mais somos, e mais sabemos. Isto é o que vejo, é o pouco que sei e reconheço. Sei também, porém, o quanto ainda por completo não vi: a nossa vida inteira. Sei a que sabe e a que cheira. Sei o sonho que é, e sei o amor que temos. Como Calvino, tenho-me com desejos em demasia, de subir para o topo das árvores mais frondosas do nosso jardim, e desafiar o mundo, desafiar a vista, saborear o vento da nossa vida. Ver mais longe, ainda. Mas, como as nossas flores, tenho também o sossego no coração. A calma e a satisfação de saber que o porvir é isso mesmo: por vir. Mas virá, apesar de ainda não ter chegado. E, a cada novo passo que dermos, teremos um outro novo mundo, bem mais admirável do que o outro: é o nosso.
Desde o primeiro dia, Maria, que te guardo o cheiro, o sabor e o toque. Eras igual ao sonho, mas melhor. Amo-te em todos os dias da nossa escola.
Com o amor de Apollo e Afrodite, do sempre teu,
Tomé

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